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H. pylori

A suplementação de probióticos para o tratamento de H. pylori visando minimizar os efeitos colaterais

Neste episódio, produzido pelo Portal Afya em parceria com a Cellera Farma, a Dra. Vera Ângelo aborda como a suplementação de probióticos é uma terapia emergente para o tratamento de H. pylori.

Por Dra. Vera Ângelo·16 de junho de 2026·5 min de leitura
A suplementação de probióticos para o tratamento de H. pylori visando minimizar os efeitos colaterais

Imagem: Adobe Stock

Muitos pacientes procuram o médico ansiosos, dizendo: "Doutor, eu tenho uma bactéria no estômago, o H. pylori. Eu vi na internet que esta bactéria pode levar ao câncer". Este tipo de consulta tem sido muito frequente e cabe a nós, profissionais de saúde, orientarmos adequadamente o paciente. Primeiro, é preciso esclarecer: que bactéria é esta?

O H. pylori é uma bactéria gram-negativa espiralada, que foi descrita pelos pesquisadores australianos Warren e Marshall, que inclusive ganharam o prêmio Nobel de Medicina na década de 1980.

Esta bactéria é rara? Só eu tenho o H. pylori?

A infecção pelo H. pylori é uma das infecções mais comuns no mundo. Estima-se que 50% da população mundial tenha essa bactéria e, no nosso meio, esse número pode chegar a 60/70%, sendo mais predominante quando faltam condições de higiene e saneamento básico.

Como ocorre a contaminação?

O modo de transmissão pode ser através das vias oral-fecal, oral-oral ou oral-gástrica. A infância é o período de maior risco para infecção. Parece ser incomum a aquisição ou o desaparecimento da infecção no indivíduo adulto.

Quais doenças podem estar relacionadas com esta bactéria?

  • Úlcera péptica gastroduodenal;
  • Câncer gástrico;
  • Linfoma MALT;
  • Gastrite;
  • Duodenite.

Em quais situações clínicas deve-se investigar a presença da bactéria?

  • Queixas dispépticas;
  • Suspeita de câncer gástrico (perda de peso, dor intensa, anemia);
  • Quando se pretende utilizar AINES ou AAS de forma prolongada;
  • Deficiência de B12;
  • Ferropenia inexplicada;
  • Púrpura trombocitopênica imune.

Como é feito o diagnóstico?

Não há nenhum sinal ou sintoma que nos leve a pensar que o paciente possa estar com esta infecção. Azia, queimação ou dor no estômago podem ocorrer em esofagites, gastrites e duodenites. A maioria dos pacientes com gastrite por H. pylori é assintomática ou oligossintomática (poucos sintomas).

Já que os sintomas contribuem pouco, como o diagnóstico é feito?

O diagnóstico de infecção pelo H. pylori pode ser feito através de:

  • Endoscopia digestiva alta: com biópsias e estudo histopatológico com coloração especial para a pesquisa da bactéria ou teste da urease.
  • Teste Respiratório com ureia marcada com carbono 13: é considerado o padrão-ouro para diagnóstico não invasivo, com sensibilidade e especificidade superiores a 95%. É um exame barato e de fácil execução, porém pouco disponível no Brasil.
  • Pesquisa de antígeno fecal: apresenta boa sensibilidade e especificidade.

Por que tratar o H. pylori?

O H. pylori é considerado o mais importante fator de risco para o câncer gástrico.

80% dos tumores gástricos malignos estão associados à infecção.

No grupo em que a bactéria foi erradicada, houve redução de 30-40% na incidência de câncer gástrico.

Como é feito o tratamento?

Os primeiros tratamentos para erradicação da bactéria H. pylori foram descritos em 1983. Quatro consensos terapêuticos já foram propostos. Segundo o último, o IV Consenso Brasileiro da Infecção pelo H. pylori, publicado em 2018, o tratamento que era realizado por 7 dias foi ampliado para 14 dias. A justificativa dos especialistas é que essa ampliação levaria à melhora da eficácia terapêutica.

O tratamento proposto como primeira opção terapêutica inclui uma associação entre antibióticos e inibidores de bomba de prótons (IBPs). Os antibióticos mais usados são metronidazol, amoxicilina e claritromicina, associados a um inibidor de bomba de prótons preferencialmente de segunda geração, como, por exemplo, o esomeprazol ou lansoprazol. A inclusão de inibidores de bomba de prótons é necessária, pois a elevação do pH gástrico aumenta a efetividade da ação dos antibióticos.

Quais são os efeitos colaterais deste tratamento?

Cefaleia, insônia, disgeusia, diarreia, vômito, dispepsia (indigestão), náusea, dor abdominal, teste de função hepática anormal, rash e hiperidrose.

Muitos pacientes suspendem o tratamento por efeitos colaterais?

Sim, muitos pacientes que apresentam efeitos colaterais durante o tratamento tendem a abandonar o mesmo. Esta suspensão pode ser desastrosa por levar à resistência às drogas. Este fato nos motiva a buscar novas estratégias para o tratamento da bactéria que melhorem as taxas de erradicação e reduzam a frequência de efeitos adversos.

Considerando que a diarreia é um possível efeito colateral, o uso de probióticos poderia ser um adjuvante no tratamento?

Probióticos são definidos pela Organização Mundial de Saúde como microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefício à saúde do hospedeiro. Têm vantagens como segurança, imunomodulação e capacidade antipatógena.

Segundo a literatura, a suplementação de probióticos é uma terapia emergente para o tratamento de H. pylori, visando minimizar os efeitos colaterais. Outro fato interessante a se destacar é que os probióticos podem impedir a colonização do H. pylori competindo por locais de ligação ou perturbando o processo de adesão. Probióticos podem bloquear a colonização de bactérias patogênicas nas células epiteliais gastrointestinais. O aumento da barreira mucosa por probióticos ajuda o hospedeiro a impedir a colonização por H. pylori.

O que se pode concluir sobre a prescrição de probióticos no tratamento do H. pylori?

Embora o IV Consenso Brasileiro da Infecção pelo H. pylori não recomende a suplementação de rotina no tratamento, os resultados científicos até agora são encorajadores e a experiência clínica mostra melhora da adesão à terapia tríplice e menor incidência de diarreia e de alterações de paladar. As cepas mais citadas na literatura como eficazes são: Lactobacillus rhamnosus GG, L. casei e L. reuteri.

Em conclusão, o uso de probióticos para tratar a infecção por H. pylori é uma opção terapêutica viável, mas apresenta algumas incertezas: dose ideal, duração da terapia e os mecanismos de interação entre os probióticos e os antibióticos prescritos.

Publicado originalmente em: Portal Afya - Gastroenterologia. Republicado com permissão.

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Dra. Vera Ângelo

Autor

Dra. Vera Ângelo

Formação Acadêmica e Títulos Mestre e Doutora em Patologia pela UFMG. Título de Especialista pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG). Residência Médica em Gastroenterologia pelo Hospital Felício Rocho. Residência em Clínica Médica/Patologia Clínica pelo Hospital Sarah Kubitschek. Experiência Profissional Responsável Técnica da Clínica NU.V.E.M MEDICINA. Professora Convidada da pós-graduação no Hospital Israelita Albert Einstein. Tutora de treinamentos em doenças funcionais e testes respiratórios. Sócia Titular do Gediib e da Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva. Publicações e Livros Doenças Funcionais em Gastrenterologia 2025 (Ed. Rubio). Métodos Diagnósticos e Motilidade Digestiva 2025 (Ed. Rubio). Manual Prático do Teste Respiratório do Hidrogênio (Ed. Rubio).

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