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Candidíase de Repetição

Candidíase de Repetição: qual a relação com o intestino?

A disbiose intestinal favorece a candidíase de repetição via translocação do fungo para a vagina. Probióticos auxiliam no tratamento, restaurando a microbiota e modulando a resposta imune local.

Por Dra. Vera Ângelo·09 de junho de 2026·5 min de leitura
Candidíase de Repetição: qual a relação com o intestino?

Imagem: Adobe Stock

A candidíase é uma infecção fúngica altamente prevalente, causada por espécies do gênero Candida. Esse fungo faz parte da microbiota da pele e das mucosas, incluindo o trato gastrointestinal e a vagina. Entretanto, quando há disbiose, pode se tornar patogênico. O tratamento mais utilizado atualmente são os derivados azólicos, todavia, o índice de reincidência da infecção tem sido elevado. Dessa forma, o uso de probióticos associados ou não à terapia convencional pode ser uma opção para o tratamento da candidíase, considerando a importância da manutenção da microbiota intestinal no combate a infecções oportunistas.

A candidíase é a segunda vaginite mais frequente, acometendo 75% das mulheres em idade reprodutiva. Estima-se que cerca de 150 milhões de mulheres em todo o mundo são afetadas pela candidíase vulvovaginal de repetição, caracterizada por quatro ou mais episódios sintomáticos em um ano. A Candida albicans é responsável por 90% dos casos e a Candida glabrata está mais associada a episódios de recorrência. Os sintomas típicos da infecção são: corrimento vaginal brancacento, prurido intenso, dispareunia e disúria.

O uso dos derivados azólicos no tratamento da candidíase tem sido questionado devido à sua toxicidade, à baixa efetividade no combate ao patógeno e ao risco do surgimento de cepas resistentes. Os efeitos colaterais, tais como náuseas, vômitos e diarreia, contribuem para a baixa adesão ao tratamento. Além disso, o surgimento de cepas resistentes está associado à incapacidade de penetração do medicamento nos biofilmes da Candida, o que reduz a efetividade do tratamento.

A microbiota intestinal impacta diretamente na saúde urogenital feminina e no sistema imunológico. Isso porque a principal forma de transmissão da candidíase é endógena; o fungo é translocado do intestino para a vagina através da região perianal e permanece como colonizador até que se estabeleçam as condições favoráveis ao desenvolvimento da doença, como a diminuição do pH vaginal, a baixa imunidade ou o uso de antibióticos de largo espectro.

Além disso, a microbiota intestinal fornece uma linha de defesa contra patógenos oportunistas, contribuindo para a modulação da imunidade (Figura 1).

Figura 1 – Mecanismos diretos e indiretos pelos quais a microbiota intestinal previne o estabelecimento de infecções oportunistas. A) Competição por nutrientes e sítios de adesão no epitélio intestinal, impedindo a adesão de patógenos. B) Produção de biossurfactantes, moléculas que diminuem a tensão superficial, impedindo a adesão microbiana às superfícies celulares e provocando o descolamento das células já aderidas. C) Produção de exometabólitos, como o ácido lático, peróxido e hidrogênio e bacteriocinas, que causam morte celular ou neutralização de toxinas microbianas. D) Modulação do sistema imune, a partir do aumento de citocinas anti-inflamatórias. E) Regulação funcional das junções de oclusão, o que limita o acesso de patógenos à circulação sistêmica.

Dessa forma, uma disbiose intestinal aumenta a suscetibilidade a candidíase de repetição.

candidíase vulvovaginal
Figura 2 – Influência da disbiose na candidíase vulvovaginal de repetição.

Estudos mostram que o uso de probióticos tem sido eficaz no tratamento da candidíase de repetição, visto que os Lactobacillus, principais bactérias probióticas, corrigem a disbiose, impedem a formação de biofilmes da Candida e estimulam a resposta de macrófagos, de forma a minimizar processos inflamatórios.

A inflamação é essencial para a Candida evoluir de levedura para hifa, forma responsável pela patogenicidade. Sendo assim, a redução da resposta inflamatória impossibilita essa mudança morfológica, quebrando o ciclo vicioso entre inflamação, transição levedura-hifa e estabelecimento da candidíase (Figura 3).

Figura 3 – Mecanismos de ação dos Lactobacillus sp. especificamente contra a Candida albicans.

Os estudos científicos comprovam que há espaço para o uso de probióticos no tratamento da candidíase vulvovaginal de repetição, principalmente se associados à terapia convencional, considerando a importância do equilíbrio da microbiota e da ação dos Lactobacillus sp. contra a Candida. Entretanto, essa opção terapêutica ainda é pouco utilizada, logo, difundi-la no meio acadêmico é de suma importância para a maior eficácia no tratamento das pacientes.

Informação

Artigo produzido em parceria com: Magalhães MV, Oliveira LRS, Tsai AFS, Brito LM, Morais RM, SEDIG BH, FAMINAS BH.

  1. 1

    Mullinari Paludo R, Marin D. Relação entre candidíase de repetição, disbiose intestinal e suplementação com probióticos: uma revisão. Revista Destaques Acadêmicos [Internet]. [Acesso outubro de 2019]; 10(3). Disponível em: DOI

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    Almeida SMA, Bezerra AN, Mendonça PS. Efeito da suplementação de Lactobacillus spp. no tratamento e prevenção de candidíase vulvovaginal e vaginose bacteriana. Rev Saúde Públ. 2017; v.10:44-60.

  3. 3

    Davar R, Nokhostin F, Eftekhar M, Sekhavat L, Bashiri Zadeh M, Shamsi F. Comparing the Recurrence of Vulvovaginal Candidiasis in Patients Undergoing Prophylactic Treatment with Probiotic and Placebo During the 6 Months. Probiotics and Antimicrobial Proteins. 2016; 8(3):130-3.

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    Matsubara VH. Efeito de bactérias probióticas sobre Candida albicans: ensaios em cultura de microrganismos e de biofilme. (Tese de Doutorado). São Paulo: Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo; 2016.

  5. 5

    Russo R, Superti F, Karadja E, De Seta F. Randomised clinical trial in women with Recurrent Vulvovaginal Candidiasis: Efficacy of probiotics and lactoferrin as maintenance treatment. Mycoses. abril de 2019; 62(4):328-35.

Dra. Vera Ângelo

Autor

Dra. Vera Ângelo

Formação Acadêmica e Títulos Mestre e Doutora em Patologia pela UFMG. Título de Especialista pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG). Residência Médica em Gastroenterologia pelo Hospital Felício Rocho. Residência em Clínica Médica/Patologia Clínica pelo Hospital Sarah Kubitschek. Experiência Profissional Responsável Técnica da Clínica NU.V.E.M MEDICINA. Professora Convidada da pós-graduação no Hospital Israelita Albert Einstein. Tutora de treinamentos em doenças funcionais e testes respiratórios. Sócia Titular do Gediib e da Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva. Publicações e Livros Doenças Funcionais em Gastrenterologia 2025 (Ed. Rubio). Métodos Diagnósticos e Motilidade Digestiva 2025 (Ed. Rubio). Manual Prático do Teste Respiratório do Hidrogênio (Ed. Rubio).

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