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Gastroenterologia

Inchaço e Distensão Abdominal: Abordagem Atualizada (Roma V)

Você sente o abdome "como um balão" ao final do dia, mesmo sem ter comido nada que justifique? Se você já passou por diversos exames e ouviu que "não tem nada", saiba que a medicina avançou.

Por Dra. Vera Ângelo·31 de julho de 2026·5 min de leitura
Inchaço e Distensão Abdominal: Abordagem Atualizada (Roma V)

Imagem: Adobe Stock

É crescente o número de pacientes que procuram assistência médica por queixas de inchaço e distensão abdominal. Muitos pacientes passam por extensa propedêutica sem achados significativos, o que gera angústia e frustração. Embora a prevalência na população geral gire em torno de 3,5%, estes sintomas atingem mais de 50% dos pacientes com Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro (DIIC), como Síndrome do Intestino Irritável (SII), dispepsia funcional ou constipação.

Definição e Diagnóstico segundo o Roma V

O Roma V reafirma a distinção clínica fundamental:

Inchaço (Bloating): Sensação subjetiva de plenitude ou "gás preso".

Distensão (Distension): Aumento visível e objetivo da circunferência abdominal ao longo do dia, muitas vezes associado à "dissinergia abdominofrênica" uma resposta paradoxal onde o diafragma desce e a musculatura abdominal anterior relaxa em resposta ao desconforto visceral.

Conforme o Roma V, o diagnóstico é baseado em sintomas, abandonando a necessidade de exclusão exaustiva de causas orgânicas em pacientes sem sinais de alerta (red flags). O diagnóstico pode ser estabelecido quando os sintomas são suficientemente incômodos para motivar a busca por ajuda médica, apresentando frequência e intensidade que impactam a qualidade de vida.

Melhores Práticas de Diagnóstico

O paradigma atual do Roma V prioriza o diagnóstico positivo:

Sinais de Alerta: Exames de imagem (TC/US) e endoscopias devem ser reservados estritamente para casos com sinais de alarme ou piora recente após os 45-50 anos.

Dissinergia Abdominofrênica: Em pacientes com distensão visível, o foco deve ser na avaliação da dinâmica da parede abdominal, minimizando a solicitação de exames de trânsito radiopaco rotineiros.

Avaliação de Carboidratos e Microbiota: O Roma V é cauteloso quanto aos testes respiratórios para SIBO/IMO. Devem ser solicitados apenas se houver forte suspeita clínica de má absorção, evitando o tratamento empírico com antibióticos (como Rifaximina) sem critérios diagnósticos claros.

Disfunção do Assoalho Pélvico: Caso haja constipação associada, a manometria anorretal ou defecografia são recomendadas precocemente para identificar distúrbios da evacuação.

Estratégias de Tratamento

O tratamento no Roma V evoluiu para uma abordagem multidisciplinar focada na "Psicogastroenterologia":

  • Modulação Dietética: Intervenções como a dieta Low FODMAP devem ser de curta duração (fase de indução), visando a reintrodução guiada por nutricionista para evitar prejuízos à diversidade do microbioma a longo prazo.
  • Neuromodulação: O uso de neuromoduladores centrais (ex.: antidepressivos tricíclicos ou ISRS em doses baixas) é recomendado não apenas por comorbidades psicológicas, mas pelo efeito direto na redução da hipersensibilidade visceral e na modulação do eixo intestino-cérebro.
  • Abordagem Musculoesquelética: A terapia de biofeedback (abdominofrênico e anorretal) e a reeducação da respiração diafragmática são pilares centrais do Roma V para tratar a dissinergia abdominofrênica.
  • Terapias Psicológicas: Hipnoterapia e Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) são recomendadas como terapias de primeira linha para pacientes com sintomas refratários, dada a evidência robusta de que a regulação autonômica melhora a percepção sensorial abdominal.
  • Probióticos: O consenso atual mantém a recomendação de que não devem ser utilizados como tratamento primário para o inchaço isolado, dada a baixa qualidade de evidência para a resolução completa do quadro.

Informação

O Roma V enfatiza que o sucesso do tratamento reside na educação do paciente sobre o mecanismo do distúrbio (relação intestino-cérebro) e no manejo das expectativas, tratando a condição como uma disfunção crônica de regulação e não como uma patologia de "exclusão".

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Dra. Vera Ângelo

Autor

Dra. Vera Ângelo

Formação Acadêmica e Títulos Mestre e Doutora em Patologia pela UFMG. Título de Especialista pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG). Residência Médica em Gastroenterologia pelo Hospital Felício Rocho. Residência em Clínica Médica/Patologia Clínica pelo Hospital Sarah Kubitschek. Experiência Profissional Responsável Técnica da Clínica NU.V.E.M MEDICINA. Professora Convidada da pós-graduação no Hospital Israelita Albert Einstein. Tutora de treinamentos em doenças funcionais e testes respiratórios. Sócia Titular do Gediib e da Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva. Publicações e Livros Doenças Funcionais em Gastrenterologia 2025 (Ed. Rubio). Métodos Diagnósticos e Motilidade Digestiva 2025 (Ed. Rubio). Manual Prático do Teste Respiratório do Hidrogênio (Ed. Rubio).

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