Inteligência artificial na gastroenterologia: o que muda (e o que não muda) para o paciente
a inteligência artificial pode diagnosticar problemas digestivos sozinha
Não. A inteligência artificial vem sendo estudada como apoio na leitura de exames como manometria, pHmetria e biópsias, mas os resultados ainda precisam de validação clínica. A interpretação e a decisão continuam com o médico, que considera os sintomas e a história de cada paciente.
A inteligência artificial chegou aos exames digestivos. Entenda onde ela pode ajudar, quais são os limites atuais e por que a decisão continua com o médico.

Imagem: Adobe Stock
A inteligência artificial já faz parte da medicina: aparece na leitura de exames, na organização de prontuários e na produção de textos. Na gastroenterologia não é diferente. Para o paciente, a pergunta que importa é simples: essa tecnologia torna o cuidado mais preciso e mais atento a cada pessoa?
Esse foi o tema do artigo "Inteligência artificial e Gastroenterologia", publicado em outubro de 2026 na Revista FBG, da Federação Brasileira de Gastroenterologia. O texto é assinado pela Dra. Vera Ângelo, responsável técnica da NU.V.E.M Medicina, e pelo Prof. Joaquim Prado P. Moraes Filho, professor associado de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP (1). A seguir, explicamos em linguagem simples os principais pontos e o que eles significam para quem cuida da saúde digestiva.
O que é inteligência artificial na saúde
De forma resumida, são programas de computador treinados com grandes volumes de dados, como imagens, traçados de exames e registros clínicos, para reconhecer padrões. Na saúde, eles podem sugerir uma leitura, destacar um achado ou organizar informações. Não examinam o paciente nem conhecem a sua história.
Onde a IA está sendo estudada na saúde digestiva
Exames de motilidade
Na manometria esofágica de alta resolução, exame que avalia as contrações do esôfago, programas de IA vêm sendo testados para reconhecer padrões no traçado. As revisões disponíveis mostram resultados promissores, mas com métodos muito diferentes entre si e validação ainda insuficiente (1). A interpretação continua seguindo a Classificação de Chicago 4.0, usada internacionalmente para esse exame, e precisa ser cruzada com os sintomas e com outros exames.
Na pHmetria com impedanciometria, exame que investiga o refluxo, a análise automatizada pode reduzir o trabalho repetitivo de revisão do registro. Os estudos, porém, ainda têm amostras limitadas e não demonstraram benefício direto para o paciente (1).
Biópsias e patologia digital
Na patologia digital, as lâminas das biópsias são digitalizadas e podem ser analisadas com apoio de IA. Um exemplo estudado é a esofagite eosinofílica, em que o diagnóstico depende da contagem de eosinófilos, um tipo de célula de defesa, no tecido do esôfago. Essa contagem pode variar de um observador para outro, e os modelos de IA conseguem localizar e contar essas células, o que pode tornar a medição mais reprodutível (1).
Ainda assim, um programa que funciona bem onde foi desenvolvido pode ter outro desempenho com outra coloração, outro scanner ou fragmentos de qualidade diferente. Por isso a leitura continua sendo revisada pelo patologista e interpretada pelo gastroenterologista junto com o quadro clínico (1).
Distúrbios da interação intestino-cérebro
Nos distúrbios da interação intestino-cérebro (DGBIs), como a síndrome do intestino irritável, a IA pode ajudar a organizar relatos de sintomas e a identificar perfis de pacientes, combinando sintomas, fatores psicossociais e dados da microbiota. As pesquisas mostram sinais interessantes, mas com muita variação entre os estudos (1).
Nesses quadros, escutar o paciente, reconhecer que os sintomas são reais e decidir o tratamento em conjunto fazem parte do próprio cuidado, e isso não pode ser reproduzido por um algoritmo. Se a tecnologia assumir tarefas repetitivas, pode sobrar mais tempo para a consulta (1).
Doença inflamatória intestinal, fígado e pâncreas
Na doença inflamatória intestinal, dados coletados com apoio de IA vêm sendo associados a sinais que podem anteceder uma piora, e na doença de Crohn modelos de imagem foram estudados na enterotomografia. No fígado, há estudos com IA aplicada a exames de imagem, biópsias e avaliação de fibrose e gordura. No pâncreas, a IA foi testada em tomografia, ressonância e ecoendoscopia, inclusive para diferenciar lesões benignas e malignas. Em todos esses campos, boa parte das pesquisas é retrospectiva, feita em poucos centros, e precisa ser confirmada antes de chegar à rotina (1).
O que não muda
O artigo deixa uma mensagem clara: a IA é mais uma ferramenta, e a responsabilidade pela interpretação e pela decisão continua com o médico (1). Um resultado sugerido por um programa precisa ser colocado no contexto de cada pessoa: os sintomas, o exame físico, a história e a evolução ao longo do tempo.
Resposta fluente não é resposta certa
Ferramentas de IA que conversam e escrevem textos podem soar convincentes e, ainda assim, trazer informações erradas, desatualizadas ou que não se aplicam ao seu caso. Se quiser usá-las para organizar dúvidas, leve as perguntas para a consulta e não mude nem suspenda um tratamento por conta própria.
O que isso significa para você
Na prática, mesmo quando um exame passa por uma etapa de análise apoiada por IA, a interpretação continua sendo responsabilidade de um médico. E, diante de sintomas digestivos persistentes, quem define o caminho é a avaliação médica: a consulta, os exames indicados para o seu caso e o acompanhamento ao longo do tempo.
Para profissionais de saúde
O artigo completo, com as 17 publicações científicas que embasam cada ponto, pode ser lido na Revista FBG. A Dra. Vera Ângelo é mestre e doutora em Patologia pela Faculdade de Medicina da UFMG e pós-graduanda em Inteligência Artificial para Médicos pela Faculdade Unimed.
Perguntas frequentes
A inteligência artificial já é usada nos exames digestivos?
Ela vem sendo estudada em exames como a manometria esofágica, a pHmetria e a análise de biópsias. Os estudos ainda pedem mais validação antes do uso amplo, e a interpretação do resultado continua com o médico.
Posso usar uma ferramenta de IA para entender meus sintomas?
Ela pode ajudar a organizar dúvidas antes da consulta, mas pode errar mesmo quando parece segura. Essas ferramentas não examinam você nem conhecem a sua história, e não substituem a avaliação médica.
A IA vai substituir o gastroenterologista?
O artigo publicado na Revista FBG defende que não. A IA pode apoiar a leitura de exames e reduzir tarefas repetitivas, mas a escuta, o exame físico, a interpretação no contexto de cada paciente e a decisão compartilhada continuam sendo papel do médico.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Responsável técnica: Dra. Vera Ângelo, CRM-MG 22284, RQE 10411 (Gastroenterologia) e RQE 22736 (Patologia Clínica), diretora técnica da NU.V.E.M Medicina, CRM-MG 20532.
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ANDRADE, V. L. Â.; MORAES FILHO, J. P. P. Inteligência artificial e Gastroenterologia. Revista FBG, Federação Brasileira de Gastroenterologia, out. 2026. Acesso em 2 nov. 2026.DOI

Autor
Dra. Vera Ângelo
CRM MG: 22284 | RQE: 10411 (Gastroenterologia) RQE: 22736 (Patologia Clínica)
Formação Acadêmica e Títulos Mestre e Doutora em Patologia pela UFMG. Título de Especialista pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG). Residência Médica em Gastroenterologia pelo Hospital Felício Rocho. Residência em Clínica Médica/Patologia Clínica pelo Hospital Sarah Kubitschek. Experiência Profissional Responsável Técnica da Clínica NU.V.E.M MEDICINA. Professora Convidada da pós-graduação no Hospital Israelita Albert Einstein. Tutora de treinamentos em doenças funcionais e testes respiratórios. Sócia Titular do Gediib e da Sociedade Brasileira de Motilidade Digestiva. Publicações e Livros Doenças Funcionais em Gastrenterologia 2025 (Ed. Rubio). Métodos Diagnósticos e Motilidade Digestiva 2025 (Ed. Rubio). Manual Prático do Teste Respiratório do Hidrogênio (Ed. Rubio).
Especialidade relacionada
Gastroenterologia
Equilíbrio intestinal pleno, de sintomas comuns até patologias complexas como SIBO, IMO e DGBI – Distúrbio da Interação Cérebro-Intestino.
